29.9.11

sobre as coisas que me arrependo. feliz aniversário pai.

Quando eu era pequena, era mais próxima do meu pai, o xodózinho. Ele me chamava de "maguinha", pq eu era magrinha.
Depois veio a adolescência, e eu tomei consciência dos defeitos dele, como pessoa.
Desde lá eu já era meio intransigente. Se hoje percebo que meus amigos mudaram de uma forma que não me agrada, acabo me afastando. Não consigo evitar. É um defeito, afinal, amigo de verdade a gente mantém.

Então que eu me afastei do meu pai. Ele era só o cara que me fez, não dava significado ao "pai" que todas pessoas tanto sentiam amor.
Meu pai era viciado no jogo do bicho, e bebia bastante. Ele era uma boa pessoa, só não tinha um rumo. O sonho dele era ganhar no jogo, e fazer tudo que ele passou anos não fazendo. Cuidar da gente, acabar com as dívidas, ser feliz.

Ele passou tanto tempo sonhando, que não deu tempo de viver. Ele não ajudava nas contas da casa, não comprava presente nas datas especiais. Mas a maior alegria dele era ganhar uns trocados de tempos em tempos no jogo, e nos dar 20 ou 30 reais pra comprar um cd. Todo faceiro.
Era legal, a gente gostava. Minha mãe não podia se dar o luxo de lá pelo dia 21, do nada, dar um dinheiro pra gente gastar. Ela tinha contas pra pagar, comida e essas coisas.

Então que cresci e passei a ressentir ele. Como ele podia ser tão egoísta? Como não conseguia enxergar que aquilo tava destruindo a gente? Pai, seja responsável! Seja o homem da casa!

Eu já não suportava ficar perto dele. A respiração era pesada, devido ao peso, e eu também conseguia escutar ele mastigando. Ficava muito irritada. Mal aguentava ganhar ou dar um beijo no rosto dele. Limpava o rosto ou a boca, pq ele tinha a pele oleosa e ainda usava aquelas loções pós barba que só melecava mais.

Eu já era intransigente lá nos meus 17 anos quando ele ficou doente. Câncer.
Nem fiquei triste. Ele já tinha feito a gente passar por tantas....
Todo mundo me falava pra passar mais tempo com ele, ser carinhosa, ele era meu "pai", apesar de tudo.

Como eu podia esquecer tudo o que ele fez a gente passar?
Eu que sempre me achei empática, não conseguia me colocar na posição dele, como pai.
É tão automático ser filho, né? A gente acha que os pais tão ali pq escolheram isso, é obrigação deles.
Não podem ficar tristes, é a vida que escolheram. Eles que me colocaram no mundo.

Só hoje eu imagino, e choro, pensando no que se passava na cabeça dele.
Ele tinha defeitos, e eu tenho muitos outros, muitos iguais, mas ele era uma pessoa boa, que me amava, assim como a minha mãe e a minha irmã.
Imagino o quando devia DOER sentir a repulsa da filha dele. O rosto virado.
Mas eu não conseguia imaginar isso, naquela época.

Então eu não fiquei do lado dele nos últimos meses, nos últimos dias e nas últimas horas.
Eu vi meu pai ser carregado num saco preto através da sala da minha casa.

No velório dele, tive uns ataques de choradeira. Aquela coisa "essa pessoa viveu comigo por 18 anos e agora eu nunca mais vou ver ela".
Não foi "eu nunca mais vou ver meu pai".

Pois bem, todo esse tempo, desde 17 de maio de 2007, eu nunca senti muita falta, ou arrependimento.
Só esse ano, de uns meses pra cá que passei a pensar no meu pai.
No que ele sentia, e não o que ele fazia.
Não o que eu sentia, e sim o que eu fazia.

Então desculpa, pai. Eu não sabia melhor naquela época.
Todos tentaram me avisar, mas é o tipo de coisa que só se aprende vivendo.
Eu odiava que a nossa vida não era mais fácil, e que eu não podia fazer nada pra você mudar.
Eu odiava que essa casa era só brigas, berros. Que sempre faltava dinheiro.
Pior que as coisas não mudaram muito depois que você foi.
Agora são só mulheres, talvez a voz não seja tão alta, mas a gente ainda consegue gritar bem alto.

Espero que você esteja muito feliz aí.
Espero que consigas ser outra pessoa diferente, odeio pensar que quando as pessoas morrem, elas passam o "resto da vida" sem fazer nada, só olhando a vida na Terra. Ou nem isso.

Eu sei que escrever um monte aqui, nesse blog bem abandonado, não é nenhum tipo de homenagem, mas é o que eu consigo fazer agora.

Feliz aniversário.

7 comentários:

Larissa disse...

Este texto foi emocionante!

d. malkovitz disse...

"Então desculpa, pai. Eu não sabia melhor naquela época (...) Eu odiava que a nossa vida não era mais fácil, e que eu não podia fazer nada pra você mudar. Eu odiava que essa casa era só brigas, berros. Que sempre faltava dinheiro" </3
(... ainda dá tempo d'eu dizer isso pro meu)

tenho certeza de que a maturidade que tens hoje para ver aquela époco com outros olhos, era a maturidade que o teu pai tinha há tempos para compreender e aceitar a dificuldade que é ter filhos adolescentes... mesmo mascarado de raiva, amor é amor. acho que ele sabia disso.

p.s. eu te admiro muito ♥

Juliana disse...

É, não é fácil dizer isso né? Eu provavelmente não teria coragem de falar de outra forma. :*

Jaison Dinho... disse...

Pois é querida, todos tens seus pais. Eu sou sincero a dizer que estou exatamente nessa vibe..PAI TE ODEIO SERIA MELHOR QU EVC EVAPORASSE DO MUNDO E NOS DEIXASSE SER FELIZ....quem sabe um dia me arrependa, mas sendo iroônico "é o que tem pra hoje".

^^camis^^ disse...

Ju, não sei qual sua religião, mas eu acredito que as pessoas convivem neste mundo por algum motivo. Talvez seu pai precisasse aprender alguma coisa com você e talvez você tenha agora aprendido o que precisava com o seu pai neste momento...

Amei seu texto e me emocionei muito.

Obrigada pela indicação do outro blog... tantos pais, tantas perdas e tantas lições...

e o melhor é conhecer no meio disso tudo tantas pessoas especiais

Beijosss

Anônimo disse...

Seu texto chamou a minha atenção logo de cara...e prendeu a minha atenção até o fim em um texto que podemos dizer que é curto para o tanto que vc conseguiu expressar e principalmente para o tanto que vc conseguiu me alertar!!! A poucas horas eu reclamei com minha mãe do barulho que ela faz ao beber ou mastigar, e isso tem me incomodado bastante ultimamente...entre outras coisas que tem acontecido e que vc citou tb, e mais algumas bem diferentes. Poxa!!! Não tenho tido paciência com minha mãe, mas o pior é que tenho a sensação de que ela mesma me repeliu. Independente de achar que alguém tem culpa ou não, percebi que posso mudar essa situação ou talvez até dar uma solução. Encaro o nosso relacionamento hoje como um casamento desgastado e decidi que preciso tomar meu rumo, pois até hoje (28 anos) durmo na mesma cama que minha mãe, pois perdi o meu pai muito cedo.
Então, só posso agora agradecer pelo seu desabafo...não tenho pai há 23 anos e quero agora ajudar minha mãe a encontrar a felicidade, mesmo que do jeito dela, pois cada cabeça é um mundo. Obrigada!!!

Juliana disse...

Olá! Fico feliz que te ajudou de alguma forma... realmente algumas coisas às vezes saem do controle, e quando vemos, é tão automático que nem percebemos.. tenho tentado muito cuidar com que falo/faço em relação às pessoas em geral.

Essa sensação que tens em relação à tua mãe, talvez ela pareça distante pq não quer discutir, né? Seria pior ainda, acredite! Nunca é tarde demais pra mudar uma situação, por mais que seja difícil.

É bem importante manter em mente que temos que fazer isso o tempo todo!

Muitas vezes eu estava assistindo alguma coisa e fui interrompida pela minha mãe e mandei "não encher o saco pq estava ocupada".. Sendo que era só apertar no pause.

Ou ela me pediu alguma coisa e eu fiz um grande drama... não dá pra viver assim!

Boa sorte! :)